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quinta-feira, 25 de junho de 2009

Alatriste

Alatriste



“Meu filho, você é um traidor e um incompetente.
Com os seus escrúpulos inoportunos ajudou inimigos de Deus e da Espanha.
Ações que serão purgadas pelos piores tormentos do inferno.
Mas, primeiro, vai pagar aqui na terra com a sua carne mortal.
Viu demais. Ouviu demais. Errou demais.
A sua vida, Capitão, já não vale nada.
É um cadáver que, por algum estranho azar, ainda se mantém em pé.”



Quando o filme saiu em DVD aqui no Brasil até fiquei interessado em assistir Alatriste. Não por saber da história ou nada deste tipo, apenas pela capa, e estive a um passo de assisti-lo, o que no final acabou não acontecendo, o filme foi caindo no esquecimento e por fim não o vi até semana passada quando ele passou numa dessas madrugadas na TV a cabo.

E digo que se o mundo fosse justo, este seria um dos filmes mais celebrados e conhecidos do cinema espanhol.

Alatriste, 2006
Alatriste de Arturo Pérez-Reverte (título alternativo)
de Agustín Díaz Yanes

com
Viggo Mortensen (Diego Alatriste)
Elena Anaya (Angélica de Alquézar)
Unax Ugalde (Íñigo Balboa)
Ariadna Gil (María de Castro)

Diego Alatriste é um soldado veterano do exercito espanhol que luta em Flandres. Com uma grande carreira militar ele é conhecido e famoso por seus atos, mas isso não o faz mais rico ou nobre, ele é apenas um soldado, sem maiores aspirações que viver e lutar. Durante um ataque, um companheiro de armas, Lope de Balboa, morre e em seus momentos finais pede para que Diego tome conta de seu filho.

Alatriste, honrado como é, pretende seguir o pedido apesar de se assustar em ser o responsável pelo futuro de um menino, e na volta a Madri o filho de Lope, Iñigo, vem morar com ele.

Entre guerras, Diego normalmente era empregado em serviços menores como espadachim ou coisas um tanto obscuras, como saques e serviços de mercenário para nobres mas sempre utilizando prudência e honra em seu fazer.

Um desses serviços é encomendado pelo Inquisidor Emilio Bocanegra, que contrata Alatriste e um outro soldado mercenário para matar dois “hereges” que estariam na cidade em determinado local à noite.

Durante a luta que se seguiu Alatriste acha a história dos hereges estranha e resolve poupar os homens. Isso acaba tornando-se o maior erro que ele poderia cometer e quando vem a tona a verdadeira identidade dos homens que Diego poupou, ele percebe que entrou no meio de uma disputa maior do que ele poderia imaginar. Com inimigos poderosos, Diego Alatriste precisa enfrentar guerras, golpes e sair de armadilhas feitas apenas para tentarem se livrar dele, isso enquanto cuida de Iñigo e tenta viver algum amor ao lado de atriz María de Castro sua amante de longa data.

- Trailer



- Crítica

Utilizando uma mistura de personagens reais e históricos Alatriste é um filme singular e marco do cinema espanhol. Acho estranho como ele pode ser tão mal visto, mal falado e tão amplamente criticado quando percebemos nele todos os elementos de um bom filme do gênero;

Temos uma ótima fotografia, com texturas e uma cenografia perfeitas que tem o poder de nos transportar para a Madri do séc. 17; apinhada de gente com pobres, escravos, comerciantes e transeuntes nas ruas de terra mostradas com realidade singular, além das cenas nos palácios, castelos, tavernas e lojas serem uma verdadeira imersão.

As batalhas, sejam as lutas de espadas homem-a-homem, sejam as batalhas campais nos mais inusitados lugares como em meio ao rio, num navio, em meio às planícies contra os franceses; tudo é muito bem dirigido e orquestrado com maestria por Agustín Díaz Yanes, que consegue manter uma história coerente tendo tantos fios para atar.

Os atores estão todos muito bem colocados, ninguém destoa. Seja Ariadna Gil interpretando a Atriz Maria de Castro, tanto no auge da beleza quanto na decadência, seja com Enrico Lo Verso, com o enigmático Malatesta, que não sabemos exatamente oque pensar dele até o final. As surpresas estão principalmente com o fato de vermos Viggo Mortensen num papel totalmente em espanhol (infelizmente eu não sei nada da língua de Cervantes, e não posso julgar se ele falou bem ou mal) mas que mesmo assim consegue passar uma credibilidade impar ao personagem; Banca Portillo, no papel de Emilio Bocanegra e não posso deixar de falar de Pilar López de Ayala, muito bem como a esposa de Malatesta, provando que não existem papéis pequenos, e sim interpretações pequenas.

As roupas, efeitos, cenários, e história bem cozida fizeram deste um filme surpreendentemente singular, uma vez que a mim foi extremamente mal recomendado sendo dito e repetido por críticos em inúmeros locais que o filme passaria “rápido demais” jogando o expectador de lado a outro sem a devida explicação. Contrariando esta opinião, achei o filme bem fundamentado, e mesmo contendo partes de cinco livros diferentes achei a história bem feita, agradável e com um ritmo coerente.

- Veredicto

Com uma boa ação, boa história, personagens bem construídos e lutas cinematográficas Alatriste é um marco do cinema espanhol que retrata com fidelidade o séc. 17 mostrando como poucos a Era de Ouro da Espanha, de seu apogeu à sua decadência. É um excelente filme, merece ser visto e é altamente recomendável.

- Trivia

O filme é de longe o filme espanhol mais caro já feito, tendo um orçamento de 24 milhões de Euros (30 milhões de dólares).

É baseado na série “Las aventuras del Capitán Alatriste” uma série de livros de grande sucesso na Espanha escritos por Agustín Díaz Yanes.

O filme foi quase feito anos antes com Antonio Banderas na direção e no papel principal.

Este não é o primeiro livro de Agustín Díaz Yanes a ganhar as telas numa grande produção. O primeiro foi O Nono Portal, (The Ninth Gate, 1999, Roman Polansky) que conta com nomes como Johnny Depp e Frank Langella no elenco.

O papel do Inquisidor Emilio Bocanegra é interpretado por uma mulher! A atriz veterana Blanca Portillo. É por isso que quando interpreta Agustina no filme Volver (Volver, 2006, Pedro Almodóvar), ela está com o cabelo curto.

O filme mostra partes de inúmeros livros da série, não se focando num volume especifico e inclusive na época que o filme foi feito não havia sido escrito ainda o volume que continha a batalha final mostrada na tela. O autor disse depois que quando chegou naquela parte da história ter se inspirado nas cenas do filme para escrever a ação.

Nota: sei que o filme não é medieval, mas por falta de outra classificação possivel inclui-o no marcador de filmes medievais.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

TRON (Tron: Uma Odissea Eletronica)

TRON
(Tron: Uma Odisséia Eletrônica
)



“Você acredita na existência do Usuário?”
“Claro... alguém tem que ter me escrito”


Assisti Tron há anos... o filme é do ano do meu nascimento e passou na TV quando o videocassete já era popular, pois lembro de tê-lo assistido gravado de alguma programação da madrugada. Com toda certeza sei que na época não o entendi (e assistindo novamente sei que a história era complexa mesmo), mas na hora isso não pareceu muito importante, pois quando era mais jovem o grande apelo do filme eram os estonteantes efeitos especiais.

Hoje em dia eles são talvez vistos como um tanto primários, algo risível para o garoto de 14 anos que já nasceu vendo coisas com computação gráfica na TV, mas no meu tempo (deuses estou soando velho), o filme era um vislumbre do futuro.

O assisti agora novamente por dois motivos; o primeiro deles é que TRON foi um marco, a cultura pop pega emprestado inúmeros de seus artifícios e ao assistir Family Guy parodiar a famosa cena da luta das motos, senti muita vontade de rever o filme. O segundo motivo foi que descobri que está sendo filmada a segunda parte, TRON 2.0 e deverá ser lançado nos próximos anos.

Contra todos os prognósticos, 27 anos depois, o filme continua um tanto atual e muito, muito bom.

TRON, 1982
Tron (escrita alternativa)
Tron: Uma Odisséia Eletrônica (em português)
de Steven Lisberger

com
Jeff Bridges (Kevin Flynn/Clu)
Bruce Boxleitner (Alan Bradley/Tron)
David Warner (Ed Dillinger/Sark)
Cindy Morgan (Dr. Lora Baines/Yori)

Flynn é um programador brilhante que havia escrito vários jogos que vieram a se tornar sucessos, mas ele não recebe um centavo por isso, pois ele os escreveu no mainframe da ENCOM, a empresa onde trabalhava, e outro programador, Ed Dillinger, se apropriou dos seus jogos. Dillinger ganhou rios de dinheiro, cresceu na hierarquia da companhia e conseguiu que demitissem Flynn. Dillinger também é o responsável por criar um programa chamado Master Control Program (MCP), que lentamente tomou conta de todos os aspectos da programação na empresa, ditando regras, tolhendo a liberdade dos programadores e vigiando oque cada um deles fazia gerando desgaste e frustração entre os empregados da ENCOM.

Alheio a isso Flynn vez por outra tenta invadir o mainframe da ENCOM procurando provas de que seus jogos foram roubados, mas sempre o MCP consegue descobrir e impedi-lo.

Numa dessas tentativas, o programa fecha todas as conexões, tolhendo a liberdade de outro usuário, Alan, que vai reclamar com Dillinger as constantes interrupções. Alan está fazendo um programa de segurança, TRON, e Dillinger percebe que se Alan continuar com o programa ele descobrirá não só os jogos que roubou, mas também que o MCP é o responsável por invadir inúmeros órgãos governamentais tanto nos Estados Unidos quanto no exterior.

A verdade é que o MCP adquiriu um nível superior de inteligência artificial e agora não só está se expandindo, como também está ficando independente e “lutando” pela própria “sobrevivência”. O MCP sabe que TRON pode pará-lo, o MCP sabe que Flynn tenta invadi-lo e o programa está fazendo o possível para acabar com as ameaças, seja chantageando seu programador dizendo que revelaria seus segredos, seja tentando destruir os programas que ainda fazem o trabalho dos usuários.

Alan, o programador de TRON vê o cerco fechando aos usuários e junto com sua namorada, Lora, que trabalha como um projeto de suspensão de matéria em laser, resolve alertar Flynn sobre a expansão do MCP. Após discutirem oque está acontecendo os três resolvem hackear o sistema tentando liberar TRON, acabar com a supremacia do programa e colher as provas que Flynn precisa para provar que os jogos são seus.

Mas o MCP não vai deixar-se destruir tão facilmente. Ele usa a tecnologia de Lora para tragar Flynn para dentro do espaço virtual, e lá Flynn descobre outra realidade. O Master Control está se apropriando de todos os programas fiéis aos usuários e àqueles que não se juntam ao comando da máquina são enviados para serem deletados em jogos eletrônicos. Flynn agora dentro da máquina tem que lutar por sua sobrevivência nos jogos e com a ajuda de outros programas fiéis aos usuários ele tenta fugir e ajudar TRON em sua jornada para tentar acabar com a supremacia do MCP.

- Trailer



- Crítica

Falar sobre TRON é um exercício estranho, pois o filme funciona em inúmeros níveis sendo complexo e original até os dias de hoje. Teríamos, portanto, obrigação de citar o visual inovador, a animação feita com computadores (novidade em 1982), a história complexa e os efeitos visuais mesclando técnicas novas e antigas.

Visualmente o filme é estarrecedor, e com uma mescla de efeitos digitais, visuais e analógicos Tron conseguiu uma fotografia inédita, referencial e que até hoje consegue parecer um tanto arrebatadora. Numa época que não tínhamos efeitos visuais mesclando as inúmeras técnicas com que o filme foi feito, pela primeira vez pudemos ver a ação de atores, a animação em computação, os efeitos visuais e a animação em 2D que mesclados compunham com perfeição um mundo digital próprio.

Os atores fazem quase sempre dois papéis, juntando um personagem do mundo real e um reflexo deste no mundo virtual. Assim temos Jeff Bridges como Flynn e Clu, seu programa de invasão, Bruce Boxleitner como Alan e Tron, Cindy Morgan como Lora e Yori e David Warner que faz as vezes de Sark o principal guerreiro do MCP além de ser a voz do próprio MCP. Excluindo alguma canastrisse de Jeff Bridges interpretando Clu, todos os demais estão muito bem, eu destacaria Bruce Boxleitner como Tron pela seriedade do personagem (o que seria esperado num programa de segurança, creio) e David Warner que personifica com exclusividade o mal neste filme. Steven Lisberger na direção tem todo o mérito de conseguir orquestrar bem um filme como este, para que não se tinha nenhum parâmetro na época de que foi feito.

Mas mesmo com uma ação boa, atores que cumprem seu papel de maneira competente, direção cuidadosa e os efeitos bastante inovadores porque TRON não foi um sucesso? Porque o filme, ao contrário do que poderia parecer, foi o responsável pela Disney cancelar sua divisão de Ficção Cientifica abandonando completamente todos os projetos de filmes nesta área?

A resposta, talvez, seja o tema e o tempo. Tron é inovador e atual... hoje. Na época a cultura da informática, da informação, da eletrônica, dos efeitos, jogos eletrônicos e da interconectividade estava engatinhando e ainda fora da esfera da grande maioria das pessoas. A parcela da população com acesso a computadores, aos assuntos e aos desafios mostrados em cena eram mínimos. E apesar de hoje haver discussões sobre invasão de privacidade e até onde um servidor pode ter acesso aos arquivos particulares de um usuário, sobre apropriação de propriedade intelectual e sobre segurança e invasão de computadores, isso em 1982 simplesmente não tinha nenhum apelo ao expectador. Este fator somado à história complexa fez com que tudo soasse confuso demais à maioria dos expectadores, e o filme ficasse gravado na memória das pessoas não como um marco na discussão de liberdade de informação, ou por sua boa história complexa, mas apenas como um filme de apelo visual e com efeitos, que apesar de belos não sustentam o interesse na fita e sem que os expectadores soubessem exatamente a que ele veio.

- Veredicto

Apesar de um tanto confuso e funcionar em vários planos Tron é um marco, e mais de 20 anos depois o filme ainda soa atual; seus efeitos, ainda são visualmente interessantes e sua trama, ainda tem apelo à nossa geração. A verdade é que talvez apenas agora o filme seja realmente compreendido.

Tron vale a pena. Se você já viu quando jovem, vale a pena rever e poder se maravilhar, se nunca viu, assista... veja como em 1982 foi criado algo que diferente de todos os postulados da informática, ainda é antigo e atual.

- Trivia

Steven Lisberger, o diretor e escritor da história, pensou em fazer o filme após se impressionar com o jogo PONG. Ele viu uma máquina num restaurante e mergulhou no mundo dos jogos de videogame querendo saber como poderia incorporar isso a um filme.

Vários animadores da Disney se recusaram a trabalhar no projeto, pois ele continha cenas de computação gráfica e eles achavam que isso além de tirar o “espírito” da animação era uma forma de ajudar a acabar com os próprios empregos. (hoje em dia com a crise da animação em 2D a computação realmente tirou os empregos dos animadores convencionais que não souberam se adaptar à nova animação).

O filme não foi indicado ao Oscar de Melhores Efeitos Especiais simplesmente porque alguns dos efeitos foram gerados por computadores, e isso na época foi considerado “trapaça”. Efeitos especiais tinham que ser visuais e “criados pelo homem”, não por máquinas.

O filme encerrou os projetos de ficção cientifica da Disney devido ao baixo retorno.

Custou 17 milhões.

O conjunto eletrônico Daft Punk disse em diversas entrevistas que TRON era um dos filmes que os inspiraram a escrever musica eletrônica, e foi recentemente anunciado que na seqüência do filme TRON 2.0, a banda fará a trilha sonora.

Tanto Jeff Bridges quanto Bruce Boxleitner deverão aparecer em TRON 2.0 dando seqüência a seus personagens, Flynn e Alan.

Em South Park quando os judeus evocam Moisés ele é exatamente igual ao MCP.

É citado várias vezes em Uma Família da Pesada (Family Guy), Simpsons, Frango Robô (Robot Chicken) e Southpark.

Na série Chuck, o personagem principal tem em seu quarto um pôster de TRON.

Clu é o nome de uma antiga linguagem de programação.

End of the Line

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Beowulf & Grendel (A Lenda de Grendel)

Beowulf & Grendel
(A Lenda de Grendel)




“Ao chegar em casa Beowulf soube que os amigos do oeste dormiam em meio à carnificina. Um Troll havia trazido morte aos dinamarqueses.
 E o grande Beowulf, melhor entre os melhores, aquele que luta sem medo com qualquer homem, levará consigo mais doze espadas dos geats para acertar as contas com a coisa.”


Em 2005 quando soube que este filme estava sendo feito, esperei como um louco até conseguir colocar as mãos em uma cópia. Não vi trailer, não conhecia o diretor e Gerard Butler não era conhecido como hoje em dia. A única coisa que me manteve esperando este filme foram as fotos de produção, mostrando que pretendiam ter não uma abordagem cinematográfica, mas pretendiam contar uma história possível sobre a famosa lenda de Beowulf.

E apesar de grande parte da crítica repudiar o filme, ele me entreteu bastante e está entre os melhores do gênero em minha opinião.

Beowulf & Grendel, 2005
Beowulf and Grendel (escrita alternativa)
Bjólfskviða (em Islandês)
A Lenda de Grendel (em português)
de Sturla Gunnarsson

com
Gerard Butler (Beowulf)
Stellan Skarsgård (Rei Hrothgar)
Sarah Polley (Selma)
Ingvar Sigurðsson (Grendel)
Tony Curran (Hondscioh)

O Rei Hrothgar tem um problema, após construir um novo Hall (ou Meadhall um salão para beber Hidromel) tem sido sistematicamente atacado por um troll. Grandes guerreiros morreram, o estado definha, seus inimigos começam a estudar uma invasão e a criatura a despeito dos esforços do rei, aparentemente não quer lutar com ele. A noticia da necessidade de um grande guerreiro se espalha até Geatland (que atualmente compõe a Suécia), onde com a permissão do Rei Hygelac, Beowulf, detentor de grandes feitos, se oferece para caçar a criatura.

Após a chegada, a situação é pior do que se esperava, o rei está mais desesperado e a criatura se esquiva dos ataques de Beowulf e do seu grupo de geats, recusando-se também lutar com eles. Muitos acreditam que até os deuses os abandonaram, fazendo com que muitos vikings pensem em se tornar cristãos, e Beowulf começa a acreditar que seus esforços foram vãos e que o problema de Hrothgar é grande demais até que Selma, a bruxa “que nenhum homem feliz quer ter por perto”, começa a esclarecer a situação.

E é bem mais do que um monstro atacando uma vila.

- Trailer



- Critica

Beowulf & Grendel é um filme interessante principalmente porque exercita de maneira muito competente algo que está em falta em filmes do gênero, algo que chamamos de “Realismo Fantástico”.

Por um lado é uma história fantástica, uma lenda, que trata de Trolls, Bruxas, Hags e coisas do tipo, mas para mérito do filme e para apreciação dos amantes do gênero tudo é tratado de maneira especialmente histórica. Não vemos exageros, grandiosidades que comummente são encontradas em filmes deste tipo. Como exemplo disso grupos de homens armados que faziam ataques eram daquele jeito, poucos e especializados no que faziam, assim como reinos eram pequenos e quase todo homem com alguma riqueza tinha uma coroa sobre a cabeça dizendo-se rei.

Outros filmes que tentaram retratar o mesmo poema, sempre caem nos pecados de misturar a alta idade média, com a baixa; mostrando reinos enormes, castelos que não existem naquela parte do mundo, armas e armaduras de outras épocas e coisas do tipo. Oque vemos em todo momento na tela são sempre pessoas vestidas, e nunca fantasiadas, este seria um dos grandes méritos e vantagem sobre outros filmes do gênero.

A produção de Sturla Gunnarsson é perfeita no que se propõe. As coisas parecem ter sido retiradas da época, construídas, utilizadas. Todos os objetos, do Hall ao navio, das armas às armaduras, da terra às pedras foram bem colocadas criando uma atmosfera perfeita para o desenrolar da história.

Em relação aos efeitos também tenho que afirmar que eles estão simplesmente perfeitos para o que o filme se propõe. Não vemos computação gráfica, não vemos montagens, nem nada deste tipo. Oque vemos é um bom trabalho de maquiagem e a utilização de artifícios simples, mas eficientes para criar “monstros” e “efeitos”. Os próprios trolls,são criados preponderantemente com o recurso perspectiva forçada (quando a câmera fica perto deles e longe dos demais atores dando a impressão que eles são maiores que os demais).

Em relação aos atores temos excelentes atuações, médias e as que deixam um pouco a desejar. Como excelentes poderíamos destacar Stellan Skarsgård como o Rei Hrothgar, é uma figura que desperta compaixão e pena, sempre bêbado, sempre se desesperando com o fato de não estar conseguindo cumprir o seu papel. Seja bêbado em seu salão, seja tentando parecer importante ou qualquer coisa do tipo Skarsgård está bem retratando um rei decadente e envelhecido mas sempre como um ser humano. Ingvar Sigurðsson, como Grendel está perfeito, monossilábico, mas com uma boa linguagem corporal, Ingvar consegue fazer um monstro com caráter, que ninguém odiará com sangue nos olhos de fato, mas que mesmo assim continua sendo um monstro. Eu ainda diria que Sarah Polley como Selma está bem colocada, ela ao meu ver consegue passar credibilidade como a mulher que vê a morte de todos, e a única que sabe oque está acontecendo e pode manipular a situação, assim como destacaria Steinunn Olina como rainha Wealhtheow, sendo um papel secundário mas bem constituído. Gerard Butler, como Beowulf, não está mal, um tanto quanto monossilábico, mas creio que isso seria oque se espera de um herói viking da época... afinal, como ele mesmo diz “Os Geats não usam palavras quando as espadas que falam de verdade” e as cenas de ação e luta são boas.

As criticas que dizem que o filme utilizou de linguagem inapropriada (sejamos claros... a maioria condenou o uso de termos fora de época como em “Fuck the Troll”) são ao meu ver, irrelevantes. Construir navios para um filme deveria ser mais bem visto do que destruí-lo apenas por algumas palavras, que em contesto são totalmente utilizáveis. Sim, o termo não existia à época... mas com toda certeza havia algo semelhante, e colocar termos e linguagem mais atual ao meu ver foi um ponto positivo.

Para finalizar gostaria de ressaltar a atuação de Eddie Marsan como Padre Brendan, o Celta. É impagável e divertido ver sua pregação louca, sua fé cega e as “discussões teológicas” que tentam provar a existência de cristo e superioridade da religião cristã ante aos deuses nórdicos.

- Veredicto

Por ser um filme que retrata com boa quantidade de acertos a situação da época, por trazer efeitos que não soam artificiais ou emplastrados, por mostrar uma boa história Beowulf & Grendel é um filme altamente recomendado aos fãs do gênero. Pena não termos mais filmes da mesma qualidade dele.

- Trivia

Gerard Butler já estava se preparando para 300 durante as filmagens de A Lenda de Grendel. E podemos ver que seu físico já está bastante constituído mas ainda não da forma do 300.

O orçamento total do filme foi de 13-14 milhões de dólares. Como comparação a animação A Lenda de Beowulf (Beowulf, Robert Zemeckis, 2007) filme fraco, e emplastrado demais na minha opinião, custou 150 milhões.

Em 2006 foi lançado um documentário chamado “Wrath of Gods” dirigido por Jon Gustafsson (que foi ator do filme e que aparece em A Lenda de Grendel creditado como Guerreiro #2) que conta como foram as filmagens de A Lenda de Grendel. O filme mostra as grandes dificuldades que tiveram que ser ultrapassadas para as filmagens e foi muito bem recebido tendo ganhado inúmeros prêmios.

Nick Dudman foi responsável pela maquiagem, ele também atuou em todos os filmes da série Harry Potter e dos filmes Batman Begins, Judge Dredd, Alien³ (entre muitos outros) e até mesmo Floresta Negra e A Lenda, ambos resenhados pelo blog.

- Bônus

Trailer de Wrath of the Gods.



domingo, 8 de março de 2009

Watchmen

Watchmen
(Watchmen)



Diário de Rorschach: 12 de Outubro de 1985. Um cachorro está morto no beco esta manhã, um pneu arrebentou sua barriga. Esta cidade tem medo de mim. Eu vi sua verdadeira face. As ruas são como um grande esgoto, um esgoto cheio de sangue e quando finalmente transbordar todos os vermes irão se afogar. A sujeira acumulada de todo sexo e assassinato já está na altura da cintura e todas as prostitutas e políticos logo vão olhar para cima e gritar ‘Salvem-nos!’ e eu sussurrarei. ‘Não!’”.


Por volta de 1987 foi lançado um quadrinho singular, Watchmen, que visava não contar uma história sobre um grupo de super-heróis virtuosos, e sim retrata-los de maneira humana, com todas as falhas e virtudes possíveis nesse meio

A tentativa de fazer um filme sobre o tema foi tentada inúmeras vezes, até que finalmente em 2009 aconteceu. O resultado resenhamos e criticamos abaixo.

Watchmen, 2009
de Zack Snyder

com
Malin Akerman (Laurie Jupiter / Silk Spectre II)
Billy Crudup (Dr. Manhattan / Jon Osterman)
Matthew Goode (Adrian Veidt / Ozymandias)
Jackie Earle Haley (Walter Kovacs / Rorschach)
Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake / The Comedian)
Patrick Wilson (Dan Dreiberg / Nite Owl II )

Há algum tempo existem os chamados vingadores mascarados. Pessoas comuns, que começaram a se vestir de maneira extravagante para poder combater o crime sem serem identificados. Esses heróis mantiveram a ordem de uma forma que a policia não conseguiu.

Eles não tinham super-poderes (com exceção de Dr. Manhattan, por conta de um acidente nuclear tem poderes extra-humanos), mas mesmo assim conseguiram mudar muito o curso da história como conhecemos. Os Estados Unidos com os heróis ao seu lado venceram o Vietnã; e também por conta de Manhattan, os EUA tem um trunfo num mundo ainda dividido entre Socialismo e Capitalismo.

No entanto os Vigilantes com o tempo passaram a não mais ser bem vistos pelo publico, e em 1977 uma lei os baniu. Alguns, como o segundo Coruja simplesmente se aposentaram, outros como Dr. Manhattan e o Comediante continuaram a trabalhar junto com o governo e ainda houve àqueles como Rorschach continuaram como vigilantes atuando mesmo com o perigo de ser preso.

Neste contexto acontece o assassinato de Edward Blake, o Comediante. A policia não dá mais importância, mas Rorschach investiga a fundo o assassinato do antigo mascarado e começa a encontrar provas de que há alguém querendo matar os antigos heróis.

Rorschach começa a mobilizar os heróis aposentados, sem muito sucesso no inicio, mas com o tempo passando, os indícios de mortes entre os heróis aparecendo, a ameaça nuclear ficando cada vez mais evidente e o distanciamento da sociedade de Dr. Manhattan (que cuida para que os EUA não sejam atacados pela URSS) tudo indica que algo realmente grande está acontecendo por trás de todos.

- Trailer



- Crítica

Assisti Watchmen um dia depois da estréia, e mesmo tendo passado agora 24 horas da projeção não é fácil escrever sobre o filme. Ele ainda está se mexendo na minha cabeça.

Oque posso afirmar a esta hora sobre ele é que não é um filme fácil. Não é fácil ver os 160 minutos e dizer que Watchmen é um filme palatável. Longe disso, Watchmen é cansativo demais. As 2h e 40 minutos de filme multiplicam-se por três para o expectador deixando a projeção cansativa ao extremo. É difícil de se concentrar com todas as coisas acontecendo em cena, é difícil acompanhar algumas das partes mais pensativas, é difícil conseguir tentar ver o mundo em nossa frente como possível, e nesses pontos o filme falha, perde a mão. Terry Gillian, mestre do Bizarro, que dirigiu coisas como “Monty Pyton e o Sentido da Vida”, “Doze Macacos” e “Brazil, o filme” sabia disso. Ele foi um dos cotados para dirigir Watchmen ainda nos anos 90 afirmou que era impossível fazer apenas um filme e sugeriu uma mini-série.

 Mas é impossível também usar mais argumentos para dizer que a história estava lá... bem feita, bem produzida. O filme é bom. O ruim é ver muitas pessoas assistindo ao filme pensando que ele é sobre super-heróis, ele não é... nunca quis ser. Watchmen é sobre como seria um mundo onde se tais heróis existissem pudessem ser minimamente reais, e pudessem viver a grande contradição que ser um “vingador mascarado” é.

E se o filme é cansativo e em certos momentos rápido demais não dando tempo para que possamos nos familiarizar com certos conceitos, por outro lado, o filme é tecnicamente (como já exposto em várias criticas) alucinante. Poucas vezes no cinema uma cena de abertura, mostrando os momentos do mundo mudados pela ação ou existência dos “heróis” foi tão bem feita feliz em comunhão com a música de Bob Dylan. O Assassinato de Kennedy, a ida de Fidel à União Soviética, a apresentação da Arte de Andy Warhol além das cenas dos vingadores mascarados em seus momentos de glória e de desgraça, tudo feito de uma forma gráfica perfeita e emocionante.

O filme também acerta em cheio no som. Apesar de em alguns momentos os efeitos sonoros serem um tanto exagerados, no conjunto tudo soa bem. As musicas do filme são um ponto forte à parte, todas muito bem escolhidas entre clássicos e finamente executadas em momentos oportunos que casam formando uma visão perfeita do que acontece. Tanto o inicio com Times They Are A’Changing de Bob Dylan, quanto o enterro com The Sound of Silance de Paul Simon and Art Garfunkel passando pela Cavalgada das Valkirias de Wagner, tudo ajuda a nos transportar para uma história que às vezes se torna tão complexa que nos expulsa.

Os atores também ajudam, Patrick Wilson , está excelente como o coruja, Malin Akerman  está convincente como Espectral e Jeffrey Dean Morgan está perfeito como O Comediante, sendo a imagem na tela do “herói” mais contradito dos Quadrinhos. No entanto é Jackie Earle Haley com Rorschach que mais chamou a minha atenção, primeiro porque apesar de acreditar que J. E, Haley era um bom ator (seu desempenho em Pecados Íntimos (Little Childrem, ,) é muito bom) mas não acreditava que ele pudesse fazer um Rorschach convincente, pela profundidade, dubiedade e moral avessa do personagem, mas ele surpreende e consegue fazer um excelente papel.

Só mesmo Billy Cudrup como Dr. Manhattan não me convenceu muito, parte por ele não passar a mim a idéia de desumanidade do personagem dos quadrinhos soando sempre vago demais, parte pela própria natureza gráfica do personagem, ele brilhando em azul em efeitos digitais o tempo todo, parece um tanto artificial oque tornaria mais difícil ainda colocar uma “alma” em sua pele azul.

Por fim, Zack Snyder faz um bom trabalho. Vemos uma evolução do plastificado 300 (300, Zack Snyder, 2007), demonstrando que ele entendeu que nem tudo pode se resumir a Chome Key e mostrando que ele pode optar por bons sets fazendo uma produção mais leve que seu filme anterior, e acredito que mesmo com as mudanças da história, este é o melhor Watchman que poderíamos ter (ao menos em um único filme).

- Veredicto
Fiel ao quadrinho, apesar das mudanças. Cansativo mas um deleite tecnicamente, Watchmen é um filme bom, mas fácil de se perder em seus pecados. Uma pena, pois o quadrinho teve vida longa justamente por saber pesar tudo oque acontecia tornando-se um clássico da nona arte.

- Trivia


O filme sofreu com uma produção que trocou inúmeras vezes de diretor, de atores e de roteiro até estabilizar-se como conhecemos. Passaram como possíveis diretores. Terry Gillian, Paul Greengrass e Darren Aronofsky.

Foram cogitados para interpretar o comediante Gary Busey (nos anos 90), Ron Perlman (no inicio de 2000) e Nathan Fillion quase conseguiu o papel.

Alan Moore recusa-se a assistir qualquer filme baseado em suas obras, recusa-se a endossa-los e recusa-se até a receber créditos por eles, dizendo que é o responsável pelos quadrinhos, apenas. Isso aconteceu em V de Vingança, Constantine, A Liga Extraordinária e Do Inferno.

E quando sugeriram que em algum dia, quem sabe num dia chuvoso ele pudesse assistir ao menos o DVD ele foi categórico “Isso não vai acontecer.”

Não foram poucos os que se posicionaram contra as cenas de nu frontal de Dr. Manhattan, mas elas foram utilizadas e o filme recebeu categoria de censura máxima nos EUA. Acima de 18 anos.


A parte que mostra Espectral e Dr. Manhattan em marte numa cratera em formato do símbolo “smile” ao contrário do que muitos pensam é REAL, a cratera com esse formato realmente existe sendo conhecida como Cratera de Galle, Cratera de Marte de Galle ou Formação de Galle, podemos encontrar mais informações e fotos na wikipedia neste link. (em inglês).

Malin Akerman, a atriz que faz a Espectral Original e mãe de Laurie Jupter (a segunda espectral, interpretada por Carla Gugino) na verdade é mais nova que Carla. Carla (que interpreta a filha) nasceu em 1971 e Malin (que interpreta a mãe) nasceu em 1978, sendo portanto 7 anos mais nova.

Alan Moore e sua esposa são ativistas dos direitos dos homossexuais, portanto não é raro que em seus escritos existam personagens homossexuais figurando entre os principais. Neste filme temos Ozymandias (que no quadrinho é mais abertamente Gay) e Silhouette, que aparece brevemente no filme e nos quadrinhos foi morta por militantes homofóbicos.

Custou 120 milhões.

O filme aparece como “Baseado na Obra de David Gibbons”, se bem que David apenas a desenhou.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Che: Part One, Che O Argentino

Che: Part One
(Che, O Argentino)




“Garoto, ninguém é tão necessário ou indispensável nesta vida.”

Falam da produção deste filme desde 2004 quando saiu o Diários de Motocicleta de Walter Salles. Lembro que na maioria dos fóruns sobre cinema classificavam um filme “Made in USA” feito após Diários de Motocicleta, como uma tentativa automaticamente falha de retratar a história de Che.

Mas Steven Sorderbergh fez um excelente trabalho nesta história em duas partes que a primeira parte eu resenho aqui.

Che: Part One
de Steven Sorderbergh

com
Benicio Del Toro (Ernesto Che Guevara)
Julia Ormond (Lisa Howard)
Demián Bichir (Fidel Castro)
Rodrigo Santoro (Raúl Castro)
Catalina Sandino Moreno (Aleida March)

Che, O Argentino, conta como Ernesto “Che” Guevara se uniu a Fidel Castro, seu irmão e um grupo de 82 “loucos” saíram do México em direção à Cuba, para liberta-la. O filme mostra tanto a ação em si, retratando como Che subiu postos até se tornar comandante, enquanto intercala momentos da visita dele à Nova Iorque em 1964, onde conta a jornalista Lisa Howard como fora a revolução cubana.

- Trailer



- Crítica

É muito difícil assistir um filme sobre Che Guevara, pois, assim como tantas figuras ele assumiu um caráter praticamente lendário, fazendo com que qualquer coisa sobre ele ou sua vida possa soar falso, inumano ou extremamente idealista. Muitas vezes chegamos ao cúmulo de ver produções sobre sua vida que o mostram como um salvador de proporções bíblicas ou exatamente o oposto, um monstro tal qual Godzilla.

Diários de Motocicleta (Diários de Motocicleta, Walter Salles, 2004) talvez tenha sido a primeira tentativa de mostrar um Che humano, não ligado ao seu futuro revolucionário, apesar de extremamente apegado a seus ideais com um resultado singelo (mas às vezes um tanto forçado).

Já a película de Soderbergh consegue fazer um trabalho um pouco melhor do que a maioria das tentativas anteriores de retratar o Che mítico por um único fator, se atém apenas a uma visão, a do próprio Ernesto Guevara. O filme é baseado nas memórias escritas por Che, e, fazendo um filme fiel e honesto a elas como foi feito, o diretor foi extremamente feliz.

Temos uma trama mista, onde hora nos vemos com um Che pós revolução fazendo seus famosos pronunciamentos nos Estados Unidos hora vemos a revolução acontecendo diante de nossos olhos, em meio a selva cubana mostrando passo a passo como o exercito revolucionário passou de Sierra Maestra expandindo seus domínios até chegar a Havana.

A escolha dos atores foi perfeita. Benicio Del Toro como poucos, encarnou o personagem sendo a imagem viva de Ernesto Guevara que vemos vendida em camisetas e adesivos em todos os lugares e mais que isso, ele conseguiu interpretar o líder muito bem (talvez passando um pouco mais de credibilidade a ele quando mais velho do que quando mais jovem).

Demian Bichir como Fidel também está excelente convencendo perfeitamente com a imagem do ditador cubano que todos conhecemos. A única ressalva em sua atuação seria justamente o fato de Bichir ter claramente se inspirado a falar como o Fidel publico que conhecemos, fazendo que o personagem soasse às vezes um tanto quanto artificial, uma vez que fala, mesmo para uma pessoa, com os trejeitos e a entonação como se estivesse falando em seus intermináveis discursos. Isso não chega a ser uma falha, uma vez que faz com que todos que assistam consigam ligar fortemente o personagem à imagem mental que temos dele agora, no entanto, soa forçado como uma forma de retratação fiel do mesmo.

Rodrigo Santoro não se destaca como Raul, mas talvez seja este o real papel do irmão de Fidel durante a revolução. Já Catalina Sandino Moreno como Aleida e Julia Ormond como Lisa Howard completam o elenco com papéis sólidos e bem interpretados.

Ressaltamos que a produção foi feliz com as locações, todas muito bem preparadas e convincentes; das cidades às florestas podemos dizer que o ambiente e clima criados para a passagem da trama foram perfeitos criando um pano de fundo onde a história pode se desenvolver bem. Artisticamente, o balanço entre colorido e preto e branco foi muito bem colocado mostrando um flash back às avessas, onde o “futuro” das pós revolução aparece preto-e-branco e o passado revolucionário é retratado em cores vivas com uma assinatura artística interessante e ajudando na criação do clima.

A única ressalva que teria sobre a película vem não pelo filme em si, mas justamente pelo realismo que ele pode passar. A um desavisado poderia soar até como documentário e nota histórica e isso de todo jeito não acontece e não seria nem prudente e nem real de se assumir. É um filme, um filme bem feito e que justamente mostra a visão do personagem título da situação, e apesar de seria, esta única visão mostra tudo que não diz respeito a revolução ou seus reflexos com uma simplicidade insustentável.

- Veredicto

O filme sobre o Argentino mais famoso do mundo é bom, bem construído e bem feito em todos os sentidos técnicos e que dizem respeito a proporcionar entretenimento contando uma história. Por este fator é um filme que vale a pena ser visto e altamente recomendável.

- Trivia

O filme foi produzido, entre outras pessoas, pelo próprio Benicio Del Toro.

Os filmes Part I e Parte II foram filmados juntos, sendo separados apenas por uma questão de tempo. Ambos foram passados juntos sob o título único de CHE no festival de Cannes de 2008.

Ryan Gosling iria fazer o papel de Beni Ramirez e chegou a ter aulas de espanhol, mas houve complicações durante o processo de filmagem e por isso ele abandonou o projeto.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Arn - Riket Vid Vägens Slut, Arn: O Novo Reino

Arn - Riket Vid Vägens Slut
(Arn: O Novo Reino)*




“Deus tem uma tarefa muito especial para você”
“Ir à Guerra?”
“Não... trazer à paz”

Cheio de expectativa, desde o ano passado esperava pela segunda vinda de Arn às telas. O primeiro filme veio decepcionando muitos leitores, mas como obra mantinha-se fiel a si mesma e era um filme até certo ponto completo e apreciei muito sua execução.

O segundo filme prometia espremer mais e mais páginas em apenas duas horas de filme, e eu que antes tinha tudo favorável sobre ele perdi as esperanças de uma boa conclusão com uma execução que deixou muito à desejar.

Arn - Riket vid vägens slut (2008)
A.k.a Arn: The Kingdom at Road's End
A.k.a Arn 2
de Peter Flinth

com
Joakim Nätterqvist (Arn Magnusson)
Stellan Skarsgård (Birger Brosa)
Milind Soman (Saladi)
Sofia Helin (Cecilia Algotsdotter)

Continuamos agora a saga de Arn Magnusson, enviado à terra santa para expiar por um pecado que não cometeu enquanto sua amada Cecília enfrenta punição semelhante num convento afastado nas terras de Götaland.

Ambos lutam para manter seus pensamentos um com o outro e para se reencontrar, mas tanto Cecília é empurrada para que faça os votos e não mais possa sair do convento, quanto Arn tem que enfrentar mais tempo à frente de seu exercito de templários enquanto luta a ultima e derradeira batalha pelo controle cristão na terra santa.

Após a batalha, Arn é dado como morto e Cecília, após um breve tempo junto ao filho que nunca antes tinha visto, começa a jornada de volta para o convento, já que não pensa em ficar com nenhum outro homem, senão seu antigo amado.

Enquanto isso, os Sverker se aliam com os Dinamarqueses e começam novamente a ameaçar o trono de Knut.

- Trailer



- Critica

Após um primeiro filme bem recebido pelo publico e parte da critica, chegamos à segunda parte da saga de Arn, e este novo filme também regido por Peter Filnth não decepciona no que tange à orquestração de elementos que formam o plano de fundo. Os atores novamente convencem em seus papéis e a fotografia é perfeita. Novamente somos tragados pelo sufocante deserto de Gaza, nas cruzadas, passamos por batalhas que souberam aproveitar bem os recursos que possuíam (tanto nas cenas em Gaza quanto nas cenas de batalha na suécia) e chegamos a uma Suécia medieval extremamente convincente; com salões, casas, castelos, mosteiros e tudo mais muito, muito bem ambientados.

Infelizmente as partes boas do filme param por aí. A despeito de boas atuações, boa fotografia, trilha sonora, som e imagem, a edição não contribui para o desenvolvimento satisfatório da história. Seriam muitos anos passados em muito poucos minutos deixando uma trama rasa, mal costurada e que muitas vezes faz referências a coisas que passam rapidamente pela tela.

Nas pouco mais de duas horas de filme, vemos anos e anos passarem, dezenas de personagens aparecerem, muita história se desenrolar; e nada, nada parece nos convencer dos fatos.

Apesar de um excelente clima, a continuidade do filme é abalada com medidas estranhamente pouco convincentes. Os anos se passam, mas aparentemente não é feito nenhum esforço ou usada nenhuma maquiagem marcante para envelhecer a maioria dos personagens. Arn ganha algumas cicatrizes, seu irmão fica careca e alguns personagens ganham alguns poucos traços, mas, fora isso, quase mais nada é notado. Cecília, Blanka e outros personagens, parecem simplesmente congelar no tempo a despeito da grande quantidade de tempo que se passa. Cecília passa anos confinada num convento e ao sair ela aparente ter quase a mesma idade de seu filho.

Enquanto o primeiro filme da saga de Arn parece ser interminável (não são poucas as pessoas que conheço que desistiram ou listaram este como um ponto negativo “O filme é longo demais, não acaba, é interminável...”) a segunda e derradeira parte parece um videoclipe. Num momento estamos acima do tempo, e em outro abaixo, há cortes sem nenhum motivo, cenas desnecessárias e outras que careceriam de ajustes e isso somada a já falada má continuidade e mudança dos personagens torna a projeção pra lá de confusa, desconfortável e contando negativamente para o filme.

Anos passam em instantes, batalhas duram segundos, personagens surgem e desaparecem do nada e vemos a obra de Jan Guillou se perder em si mesma numa trama que pode até lembrar o primeiro filme ou fazer referência aos livros, mas que nem conclui o primeiro filme satisfatoriamente e nem faz jus à obra escrita.

- Veredicto

Por inconsistência na montagem, continuidade e execução da segunda parte da saga do Cavaleiro Templário, infelizmente classifico o filme como dispensável. Apesar de ser bom para os olhos, com imagens belas e bom clima; caso tenha gostado do primeiro filme talvez seja melhor mantê-lo em mente sem conclusão, uma vez que o segundo coloca toda a história a perder.

- Trivia

O rei Knut assim como seus filhos Erik e Jon que são interpretados por Gustaf Skarsgård, Bill Skarsgård e Valter Skarsgård são todos filhos de Stellan Skarsgård, que também está no filme e interpreta Birger Brosa. Stellan Skarsgård talvez seja o nome mais conhecido da produção já que é um ator de renome internacional que já fez várias produções de Hollywood como Mamma Mia e Piratas do Caribe – No Fim do Mundo (entre tantos)

Musicas do filme foram compostas por Tuomas Kantelinen (que fez a trilha sonora de outros filmes suecos) e foi cantada por Marie Fredriksson, muito conhecida por ser a cantora do grupo sueco Roxette.

Milind Soman que faz o papel de Saladino é um Modelo de ascendência indiana que fez inúmeros papéis em filmes indianos. No entanto ele é escocês e até por volta dos 10 anos morou lá.


* Não achei em nenhum site especializado a tradução do título do segundo filme. Optei então por traduzi-lo com base no nome do livro em que foi inspirado, mas, este não é o nome oficial da tradução e me comprometo a tão logo saber dela mudar o título.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Arn Tempelriddaren, Arn, O Cavaleiro Templário

Arn Tempelriddaren
(Arn, O Cavaleiro Templário)




Sempre fui fascinado por espadas e quem me conhece sabe que acho que talvez uma das melhores cenas já filmadas seja o inicio de Conan o Bárbaro, que mostra o pai do cimério mais famoso do mundo forjando uma espada. Desde quando eu era pequeno aquela cena me pareceu incrivelmente singular, e depois de velho descobri que a espada de Conan foi criação de um ferreiro famoso no mundo das espadas de filmes; Jody Samson, que hoje trabalha na forjaria Albion.

Eu sempre que posso vou até o site da forjaria e, numa dessas visitas tive a noticia que estavam sendo filmada a série de Arn o Cavaleiro Templário, baseada nos já famosos livros de Jan Guillou. Seriam dois filmes abordando os livros da série (a crítica da segunda parte pode ser lida aqui) e ambos utilizariam armas forjadas por eles e haviam links com fotos das espadas e armas da produção sendo construídas.

Este tipo de produção, com armas forjadas e locações em diversos países captou minha atenção e pacientemente esperei para que o filme fosse lançado e que eu conseguisse, com alguma sorte, vê-lo. Demorou um pouco, mas no meio do ano passado consegui uma cópia do filme que agora, resenho e critico.

Arn Tempelriddaren (2007)
de Peter Flinth

com

Joakim Nätterqvist (Arn Magnusson)
Sofia Helin (Cecilia Algotsdotter)
Stellan Skarsgård (Birger Brosa)
Vincent Perez (Brother Guilbert)

(o texto a seguir contém spoilers do filme)
A história em si começa com Arn, cavaleiro templário que protegia os peregrinos na terra santa por volta do ano 1100 lutando contra bandidos sarracenos. A vitória é rápida e breve, mas quando o cavaleiro desmonta e ajoelha-se para agradecer a Deus pela vitória sua fronte revela uma face perturbada, como se estivesse em outro lugar; longe, longe dali.

A estória deste primeiro filme conta como Arn, filho de um Jarl da importante família gótica de Fulkung fez seu caminho até a Terra Santa, apesar do coração do cavaleiro estar distante.

Arn nasceu num tempo turbulento no qual três famílias dominavam a Suécia e lutavam entre si. Sua família apoiava o rei que foi morto, e apesar de ter a paz com o rei atual era uma paz inquieta, principalmente porque às escondidas a família de Arn mantinha Knut, herdeiro do rei morto, num exílio na Noruega esperando que algum dia ele pudesse retornar e retomar oque era seu.

Apenas uma criança, Arn e vivia alheio aos problemas dos adultos, se divertindo como podia em meio às guerras e conflitos em todos os lugares. Repentinamente ele sofre um acidente e seus pais, cristãos, fazem uma promessa de entregá-lo a igreja caso o filho sobrevivesse.

Arn sobrevive e é levado a um monastério Cisterciense onde monges um tanto relutantes aceitam o garoto, que passa a ser ensinado pelo Irmão Gilbert, um monge templário que acabara de voltar da terra santa. Apesar de aprender a rezar, a ler e a escrever o foco principal do treinamento de Arn é militar. Ele aprende a lutar com espada, arco e lança, além de cavalgar cavalos de guerra.

Após um novo acidente, em que Arn mata dois homens em legitima defesa os monges o absolvem, mas falam que ele não tem vocação religiosa e estaria livre para voltar para sua família. Arn retorna para encontrar seu pai mergulhado em conflitos com o rei, que usa artifícios para tentar diminuir o poder da família Fulkung. Arn torna-se uma peça decisiva num julgamento envolvendo seu pai e um comandado do rei, e após uma vitória ganha certa fama.

Arn finda por se apaixonar por Cecília, com quem passa a ter um romance às escondidas já que o pai dela apóia o rei usurpador, inimigo da família Fulklung de modo que em tempos turbulentos como os que passavam, eles não podiam se casar devido às desavenças. Knut retorna do exílio, junta-se com mercenários e parte para assassinar o rei e Arn o apóia, principalmente porque com sua vitória pode haver a paz que precisa para seu casamento, mas as coisas não saem exatamente como o planejado.

Apesar da vitória de Knut sobre o rei que matou e tomou o trono de seu pai, ainda havia lutas e guerra com seus apoiadores. A paz para o casamento não se concretiza, e Arn e Cecília tem que manter seu relacionamento oculto. A irmã de Cecília, apaixonada por Arn e enciumada por ter por ele um amor não correspondido, ao saber da noticia que Cecília espera um filho de Arn denuncia o casal ao bispo. A igreja estava do lado do rei recentemente assassinado, e excomunga Arn e Cecília, mandando-a para um convento e ele para a Terra Santa por um período de expiação de 20 anos.

Arn, na terra santa, luta e encontra forças para no futuro possa se encontrar com Cecília.

- Critica

Tentei não ver a história do filme comparando-a com o livro, procurando ver a película como algo finito em si mesmo.

Arn Tempelriddaren é um filme singular. Não é uma produção de Hollywood, mas é grandioso em seu jeito. Não pense em visões como as grandiosas batalhas de Cruzada (Kingdom of Heaven, Ridley Scott, 2005) envolvendo milhares de pessoas com efeitos visuais e computação gráfica, pense em algo intimista, quase minimalista. O filme não investiu em tomadas grandiosas, mas pequenas e curtas, em lugares que eles podiam explorar os detalhes, tornando tudo simples, mas rico.

As locações foram excelentemente escolhidas, os figurinos, armas, armaduras e construções são perfeitas levando o expectador a se ver em meio aos locais sem a necessidade de efeitos complexos.

Outra coisa digna de nota, que ajuda a criar um clima é a questão da língua. O filme é hora falado em sueco, hora em latim, árabe, inglês ou francês, dependendo da nacionalidade das partes envolvidas nos diálogos e isso dá profundidade, verossimilhança e tornava as cenas verdadeiras dando ao filme, que foi até hoje a maior e mais cara produção sueca do gênero, uma conotação mais realista, que junto à história bem construída, ponderada e com partes de ação e sentimento balanceadas formam um filme excelente e que merece ser visto.

- Veredicto

Com uma estória épica medieval, boa fotografia, boas atuações e um clima verossímil, Arn Tempelriddaren é um filme indispensável do chamado novo cinema sueco. Uma verdadeira viagem à época e um filme que cumpre bem oque promete.

- Trailer



- Bônus

Como conheci o filme através do site da Amblion deixo aqui ambos os links para os sites

Albion Swords – Para quem quiser adquirir espadas historicamente feitas com táticas tradicionais ou modernas e qualidade superior

Arn Swords – Para quem quiser comprar replicas de espadas do filme (se viu o filme vale ao menos uma visita para ver os detalhes da produção)